quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Seu paradoxo

Eu sempre ouvia você me aconselhando a não dizer qualquer palavra quando eu não tivesse certeza do seu significado... Pra não correr o risco de falar besteira!
E aí, eu me pergunto: Então por que motivo você insiste em me chamar de amor?

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Me ame por uma semana


Oi... É... Desculpa chegar assim sem avisar, nem nada, mas é urgente...
Por favor, não fala nada, só me escuta, porque pela primeira vez eu preciso muito da sua ajuda. Só você. Só você pode me ajudar agora...
Eu sempre evitei esse tipo de coisa porque nunca queria lhe incomodar, mas pela primeira vez eu vim lhe pedir algo de verdade.
Quero lhe pedir um favor. Aliás, um favor não; uma súplica:
Me ame.
É isso mesmo! Me ame. Pode ser por... sei lá... Uma semana! Acho que uma semana é o bastante... É! Me ame por uma semana!
Calma, me escuta antes de negar meu pedido. Eu juro. Eu juro que no final vai ser melhor pra nós dois. Acredita em mim, é melhor. Por favor, me ame por uma semana como você nunca imaginou que me amaria ou talvez até nunca imaginou que amaria alguém.
Me ame em excesso. Você sempre gostou dos excessos e exageros. Mantenha essa sua personalidade, apenas use-a pros fins contrários: exceda no amor.
Me enjoe de tanto amor.
Durante essa uma semana, me ligue. Ligue todos os dias que puder e quando ligar diga que ligou só pra ouvir minha voz, pra ter a certeza de que tô bem e porque quer saber como foi meu dia, pois se preocupa comigo. Quando ligar diga que pensou o dia inteiro em mim e que tá contando os minutos pra ver meu rosto e tocar meu corpo de novo.
Durante uma semana me mande mensagens de bom dia e boa noite ou apenas um "Tô sentindo a sua falta", "Estou com saudades". Me mande chocolates e buquê de flores, me elogie dizendo o quanto me admira e que sou a namorada que sempre quis, mesmo sabendo que eu não sou... Que eu nunca alcancei esse posto na sua vida. Mas calma, não faça essa cara de "Que patético!", isso é sério, acredita em mim só agora. Sim, sim, eu sei que será tudo uma grande farsa, mas eu vou acreditar e isso é o que importa. Nessa uma semana minta, finja, me iluda como você sempre fez só que de uma forma diferente: me engane dizendo que sou a melhor coisa que lhe aconteceu.
Quando chegar essa semana, me faça surpresas, me faça rir; você sabe o quanto tem um humor inteligente e sabe também que pra ter meu sorriso basta querer. Nessa semana me diga tudo o que eu quero ouvir e um pouco mais. Faça com que eu seja ou; pelo menos, pareça ser a pessoa mais importante da sua vida. Corra atrás de mim e diga que me quer e que é só a mim que deseja. E se lhe perguntarem, confirme, diga que sou sua por uma semana. Eu quero ser. Eu preciso ser.
Mas pra que isso aconteça é preciso que você faça sua parte. Me ame. Uma semana. Não precisa mais que isso. Nem quero que seja mais, nem oito dias, nove, dez... Não! Pode ser só sete mesmo, é o suficiente pra essa minha experiência.
Por esses sete dias me trate como uma namorada... O que eu acho que nunca fui, nem em fachada, nem na maneira do seu relacionamento. Dessa vez me trate como uma. Faça eu me sentir a mulher mais feliz do mundo. Acho que deve ser muito gratificante ser dono dessa sensação... Descubra se é e me diga! Dê o seu máximo, como se me amar fosse seu maior objetivo, o que você sempre quis. Não ria! Sim, eu sei, eu sei que não é, mas disfarça... Vai. Por favor?
Eu preciso disso, eu preciso viver isso tudo porque eu confesso que sinto falta. Sinto falta das suas grosserias, de você me jogando na cara tudo o que eu faço de errado e o quanto eu sou errada... O quanto eu sou errada pra você e pra sua vida e o quanto as coisas entre a gente nunca dão certo. Sinto falta de você me puxando forte pelo braço e reclamando, de você me dizendo que eu tô longe de ser o que você quer.
Sabe, eu sinto falta da inexistência de preocupação, da sua escassez nos carinhos, sua economia nos sorrisos. Falta desse seu jeito bruto e conquistador. Sinto falta de todos os tapas na cara que você já me deu sem ao menos encostar os dedos na minha face... Mas que me machucavam tanto...
Você me domesticou tão bem com essa insanidade e esse seu gosto pelo errado que hoje eu sinto falta da dor. Olha a que ponto de loucura eu cheguei! Meu Deus! Sinto falta da dor que você tanto me causou.
Você me ensinou a ser sadomasoquista e quando eu não sou, até disso eu sinto falta.
Sinto falta do seu riso irônico sobre todas as minhas burradas, inclusive essa, a de lhe querer tanto. Sinto falta do seu apoio que eu nunca tive. Falta da distância que a sua frieza insistia em impor entre as nossas mãos. Falta do abraço que eu não recebia quando mais precisava. Falta dos consolos que você nunca fez questão de dar mesmo quando me via chorando. Às vezes por sua culpa. Sinto falta da falta que na minha vida você sempre foi. É estranho né?! Sentir falta de alguma coisa que pra você sempre foi falta... E o pior é que eu sinto. Eu sinto muito e eu choro pelo vazio que você sempre foi aqui dentro.
Agora... Quanto a minha proposta, eu imploro, não rejeite-a! Ela foi pensada com boas intenções. Ela tem bons propósitos... Tente. Se esforce. Parece insano, eu também acho que seja, mas é minha última tentativa e dessa vez você tem de querer junto comigo pra poder dar certo. Não, não, não me olha assim, ouve com carinho, pelo menos uma vez acate um pedido meu. Aceita só esse... Por favor. Vai ser bom, vai ser bom pra nós dois. Só assim eu vou conseguir lhe esquecer de uma vez por todas pra poder guardar em mim só as cinzas de tudo que você nunca foi. É, só assim. Só se você for assim...
Porque eu preciso muito sanar de uma vez por todas uma dúvida que em mim já é quase certeza: O que eu amo é essa sua falta de amor por mim.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Carta a um coração


O problema é que todo mundo um dia cansa.
A gente espera, acredita, dá uma nova chance dizendo: "Agora sim! Dessa vez vai valer a pena eu tentar! É essa pessoa que vai mudar tudo o que eu tô sentindo agora."
E você vai - pedindo no fundo, bem baixinho pra si mesma - pra que ele se torne a pessoa mais incrível que você já conheceu, você vai rezando pra que ele lhe diga o quão babaca você foi por achar que nunca ninguém lhe tiraria do chão e lhe faria mudar de opinião a respeito do amor.
Mas aí, as flores que você tanto regou; murcham e a vida lhe dá uma nova rasteira por trás.
E os únicos pensamentos que lhe sobram são: Por que eu ainda insisto que pode existir o certo se sempre tenho o duvidoso? Por que eu ainda creio naquilo que nunca me foi mostrado? Por que ainda levo a sério as pessoas que nunca me são recíprocas?
POR QUE EU AINDA ACREDITO NO AMOR?
Sabe... Chega uma hora que cansa... Que enche o saco, que você pára, olha pra cena que se repete rotineiramente e você diz: Quer saber? Foda-se! Cansei. Cansei de brincar de ser moça boa e de agir sempre certo esperando o cara que vai me beijar a mão e me dizer "Fica comigo".
Cansei.
Desisti.
Me frustei.
Mais uma vez.
Olha, eu lhe entendo, amiga. Eu juro que lhe entendo. Até por que todo mundo passa por isso, faz parte dos ciclos da vida.
E eu sei também que a coisa que você menos quer ouvir agora é alguém dizendo que lhe entende, porque você sabe que no fundo só você mesma entende... Ou melhor, não entende, mas sente e tenta de alguma forma compreender o que tem de tão errado em querer ser feliz com alguém ao seu lado.
E eu sei o quanto é inútil lhe dizer que você ainda não esbarrou com a sua metade da laranja, mas que isso ainda acontecerá. Que nada é por acaso e que você ainda vai achar aquele alguém que vai lhe fazer muito bem. Eu sei, todos lhe dizem isso e você TAMBÉM tá de saco cheio de ouvir e de esperar pelo que lhe falam, mas que nunca acontece.
Sei também que o que acabaria com toda a frustração que está sentindo agora seria receber uma surpresa de algum bom moço lhe dizendo: "Pegadinha do malandro! Aqui está quem você tanto procurou!". "Fica comigo". Porque você ainda tem esperanças, é verdade que as deseja de alguma forma sufocar, mas elas estão lá e a gente sabe como é o coração.
Mas apesar de não poder lhe trazer alguém que lhe faça sorrir agora, o que posso fazer é lhe garantir, sem titubeio, que você é muito boa, que a sua alegria é contagiante; apesar de exagerada, que o seu coração é grande até demais, mas fica pequeno perto de tanta desilusão e que você é aquele tipo de pessoa que a gente sabe que tem muitas qualidades pra não se dar bem na vida. E compreendo que é difícil construir uma autoconfiança diante de tanta reprovação, mas digo e repito: Acredite em si. Você é boa, de verdade. Se não fosse eu lhe diria... Sinceridade é meu forte! Acredite e mostre pros outros o quão forte você é e sabe que é.
Infelizmente, só o tempo e o entendimento disso tudo é que vai lhe tirar esse rancor, essa possível; porém, triste possibilidade de se tornar descrente de tudo que possa querer ameaçar a integridade dos seus sentimentos. Sei que é duro pedir-lhe para que continue acreditando - sem se comprometer por inteira - mas que continue no jogo e continue apostando mesmo com todas as fichas perdidas. É duro, mas ainda lhe peço: Não desista.
E por último, dou-lhe como conselho: Não se cobre, não exija que encontre alguém só porque sua vizinha feia e carrancuda é casada e se diz feliz. Não, você sabe que é muito mais feliz do que ela. Você sabe que essa felicidade que irradia não é de mentira, você sabe que não precisa de ninguém pra se sentir bem. Às vezes você sente falta, é normal... Mas sabe que já aprendeu a viver sozinha e ser suficiente assim.
Por isso, abandone um pouco o coração, deixe-o de lado, ele geralmente é inconsequente e lhe leva a tomar atitudes que HOJE podem ser erradas pra o que está passando no seu mundo. Viva só, porém contente com isso, usufrua de todos os benefícios da vida só. Mesmo que não seja assim que você queira estar agora, aceite essa fase. São as férias do amor e das encrencas que ele pode lhe trazer.
Aproveite ao máximo, pois enquanto isso as doses de tempo são ministradas no seu corpo e logo, logo você se sentirá pronta pra quebrar a cara quantas vezes mais for preciso, mas também para acertar.
Acredite, sorria e viva. São os tarjas preta que posso lhe receitar pra hoje.

Ass.: Uma amiga que divide seus anseios.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

1 + 1 = 1

Nossa história começa com um homem e uma mulher.
Ele é músico... Ela também. Ambos vivem de música. Ambos respiram música e têm nela; se não o maior objetivo de vida, uma grande idealização.
Ela gosta de música clássica... Ele de reggae.
Eles se encontram. Se conhecem. Simpatizam. Descobrem suas afinidades e começam a sair, a se ver mais vezes. Começam a gostar um do outro, a compartilhar desejos, a dividir momentos, a trocar segredos.
Entretanto, frequentemente eles acabam discutindo, mesmo com o pouco tempo de um talvez relacionamento. Discutem pelas inúmeras divergências dos gostos. Ela, música clássica. Ele, reggae. Pois, apesar de ambos desejarem seguir um futuro na música, o caminho que ela almeja traçar se torna completamente diferente do dele a partir do momento que os estilos musicais se confrontam em mercado de trabalho, em oportunidades e até mesmo no lugar para se morar e se construir uma família futuramente. São completamente distintos.
Ele quer ficar com ela. Ela quer ficar com ele. Eles têm duas opções. Ambos têm de fazer uma escolha em conjunto. Mas vamos falar dela:
Ela tem a opção de deixá-lo e correr atrás de um cara que goste de música clássica também, que mesmo que não queira isso como futuro, ainda assim a apoie e esteja disposto a se moldar à carreira dela; ou então, ela pode simplesmente fechar os olhos, fingir que ignora os fatos e levar as coisas adiante... Pra dar chance a uma loucura, pra passar por descargas de adrenalina... Sei lá.
Só sei que ela resolve continuar. Desesperançosa, acreditando que nada daria certo. Na verdade, achava isso tudo uma grande maluquice. Se em tão pouco tempo os desentendimentos já eram rotineiros em cima de um mesmo motivo, quem dirá, em anos... Aliás, não precisamos nem considerar tanto, vamos pensar em meses. Como superariam as constantes divergências?
Ainda assim eles decidem continuar. Continuam a compartilhar, a dividir, a trocar. Passam a sentir falta um do outro. Notam que aquele já faz parte da sua vida. E se sentem bem assim. Sentem que se completam de alguma forma.
Contudo, as diferenças permanecem. E as brigas também.
Depois de um certo tempo, cansada e buscando o entendimento, ela viu que era preciso abrir mão de certas opiniões e preceitos e talvez até, de certos planejamentos e decidiu que se tornaria mais aberta às opiniões e escolhas dele. Ele compactuou, viu que o esforço poderia valer à pena.
Depois de deixarem de lado um pouquinho de si e absorverem um pouquinho mais do outro, eles acabaram alcançando o inusitado. Fizeram dar certo o que ninguém jamais acreditaria. Fizeram dar certo o que os dois durante muito tempo rejeitaram.
Nossa história termina com o casal que consegue realizar um dos maiores sucessos de todos os tempos: a mistura Clássico-Reggae.
Hoje, guardam prêmios e elogios da combinação que por muitos artistas é vista como a mais inusitada e harmoniosa.
Porém, acredito que não basta misturar, que não seria suficiente pegar esses ritmos tão opostos e juntar.
Não se uniram ritmos, se uniram essências.
Acredito que nada é grande demais quando se deseja de verdade, se acredita e se tem força de vontade para correr atrás; seja de um sonho, de uma nova vida ou de um amor. Tudo pode dar certo, por mais improvável que pareça; é questão de querer, de dar uma chance. Diferenças podem ser aceitas e problemas sintetizados quando os esforços se unem para uma vontade em comum e creio que quando se fala em amor, se fala antes de mais nada, em troca, em divisão, em abrir mão de parte de si para deixar esta ser preenchida por parte de outro. E se ainda assim as coisas não derem certo, não há motivos para desanimar; pois, quem sabe os ingredientes, um dia acerta na receita do bolo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Só eu sei

O problema é que depois de tanto me machucar com o mundo, tomei a - talvez burra - escolha de construir a minha própria armadura e junto dela engessar meu sorriso e minha expressão de contentamento perante as consequências dessa fortaleza que eu mesma crio.
Quando decretei minha mudança, mergulhei tão a fundo nela e tomei tal decisão com tamanha sobriedade que por muito pouco não me fiz acreditar. E por ser do tipo que levas as coisas adiante ante as frustrações e anseios e do tipo que não sabe viver mais ou menos; que vive de corpo inteiro até mesmo aquilo que rejeita...
Pois é... Por ser do tipo que muda constantemente e do tipo que gosta de conservar os seus inconsequentes vícios, que me fiz a mentira mais verdadeira que poderia ser. Aquela mentira deslavada e do semblante mais descarado que tenho gravado em mim. Hoje todos acreditam na máscara que visto. Hoje tenho o que por muito tempo acreditei cegamente querer. Hoje não quero.
Mas só eu. Só eu sei. Só eu sei o quanto gosto de ter a permissão pra me preocupar com alguém e fazer deste engrenagem de mim mesma e saber que minha peça também se preocupa comigo e sente a ausência da minha cumplicidade desmedida. Só eu sei o quanto gosto de carinho recíproco e de sorrir sem motivo, mas sabendo exatamente o porquê do meu sorriso. Só eu sei o quanto preciso deixar que me preencham para que nunca haja espaço que me faça deparar-me com meu completo vazio. Só eu sei o quanto sinto falta de ter essa minha parte notada e ser por ela tocada.
Enquanto isso, continuo agindo como sempre agi. Mantenho a armadura, o gesso e o disfarce. Continuo com esse jeito de quem é feliz de qualquer jeito. Meio sem jeito. Feliz mesmo sem o 'outro' jeito. Continuo esperando um colo do mesmo jeito. Esperando para ter como única resposta apenas um sorriso. Um sorriso daqueles. Daqueles sem motivo, mas que sabe-se bem o porquê se está sorrindo. Um sorriso que me faça viver o que hoje só eu sei o quanto quero ser.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Marcas tuas

Acho que foi de tanto dar murro em ponta de faca que me acostumei a ver-me sempre ensanguentada. A dor já não tem importância, acredito que tenha virado recorrente, rotineira... Ou talvez meu corpo tenha criado enfim, os anticorpos para o teu amor antígeno e, talvez por isso minha carcaça esteja já mais resistente às constantes feridas da tua faca. Os cortes deixaram vestígios do teu crime no meu corpo; mas esses já cicatrizaram, mesmo depois das inúmeras infecções hospitalares. Hoje entendo que iludia-me ao julgar tuas atitudes erradas, quando na verdade, você era errado pra mim.
Não te vejo com indiferença, entretanto não te tenho esperança. Aprendi que reciprocidade é mais utópico do que se imagina e que nem tudo que vai, necessariamente volta, mas que quando não volta, é sinal de que realmente nunca deveria ter ido. Os dias me ensinaram que não adianta; por mais forte que seja, ninguém vai contra a própria natureza. Água nunca será óleo e mesmo lado a lado; jamais misturar-se-ão de fato.
E ao me dar conta de que a cada minuto a mais, fazia-me brinquedo inconsciente teu; decidi me decidir. Tirar do papel as idealizações e fazer de verdade. Mudança nenhuma acontece em estado de inércia. E tua inércia sobre mim, tem como única resultante a minha impotência perante a ti. E eu já estava cansada demais para os teus jogos de incógnitas enquanto eu me fazia um livro aberto. Se é pra jogar aberto, tem que ser verdade, tem que ser junto. Ao sair da inércia, decidi: Não aceitaria mais tuas meias verdades ou tuas confissões fantasiosas.
Quando um não fala a mesma língua, dois não entram em acordo.
Estou satisfeita comigo ao ver que meu reflexo no espelho não me esconde mais nada e que nenhum sorriso meu será castigado por olhar cansado teu e que nenhuma lágrima minha se fará mais dolorida por sentir teu riso insensato. Quando me deixei revelar, me encontrei. Mal sabia eu que carta com destinatário é melhor remédio do que ombro amigo.
Cansei de ser porto. Hoje quero ser navio sem âncora.
Te tenho aqui, como mais uma cicatriz junto de todas as outras que um dia já me puseram. Mas não penses que fico triste pelas tuas marcas, pois só as têm, quem ainda é corajoso o suficiente para ouvir os conselhos e defender em todos as brigas o amigo que repetidas vezes se faz teu maior inimigo: o coração.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Infelicidade normal

Estava com nenhuma vontade de ir ao cinema naquele sábado à tarde, mas parecia que tudo conspirava para que fôssemos: era o último dia em cartaz do filme que queria assistir, minha namorada havia sido "dispensada" do programa com a família e tínhamos o carro durante todo o dia. Para agradá-la, fui. Quase obrigado; mas fui.
Chegamos ao shopping, pedi para que comprasse os ingressos, a pipoca e as guloseimas extremamente doces que em nada me apeteciam. Enquanto isso eu esperaria no sofá próximo à cafeteria do cinema. Fiquei por um tempo admirando o nada, até que comecei a me sentir incomodado pela sensação de que alguém me observava. Parecia estar relativamente próximo, à minha esquerda. Virei o rosto e descobri que o admirador era Fred. Meu coração veio à boca e voltou em segundos. Perdi o fôlego quando um frio tomou-me pelo corpo todo e junto dele vieram os flashbacks. Toda a infância que passamos juntos, todas as brincadeiras, os momentos que fomos irmãos, os choros seguidos de abraços recíprocos, os dias de escola, as descobertas, os sustos.
Nos entendíamos mais que nós mesmos. Tínhamos uma ligação muito forte e a qual duvido conhecer alguém que me traga-a de volta. Éramos os amigos mais sinceros e verdadeiros que se podem ser. Me bateu saudade, nostalgia, melancolia, dor. Desejei não estar ali... Mas o destino nunca gostou de mim.
Quando me reintegrei parcialmente por dentro; tentei esboçar um tímido sorriso de pesar, não sei se consegui. Sei somente que não fui correspondido. E era mesmo muita frieza e audácia da minha parte esperar que fosse. Ele continuava ali, parado, estático, sem mover um músculo, como quem brincava de "sério", mas não tinha dúvidas que se eu estava em frangalhos pela sua presença perturbadora, ele estava muito mais. Seu sofrimento era maior e eu sabia disso.
Roberta tirou-me da hipnose chamando-me para entrar e empurrando-me contra o peito o balde de pipocas e o saco das suas malditas guloseimas. Não prestei atenção ao que disse; apenas levantei, como que mecanicamente, com as forças que me restavam e fui assistir ao filme.
Fui, mas fiquei. Fui em corpo, fiquei em alma, em espírito, em pulsação. Eu ainda permanecia lá; sentado naquele sofá, com feição de cachorro sem dono, torturando à mim mesmo pela certeza de que a maior burrada da minha vida fora aquele dia. O dia que ele disse: "Vamos ficar juntos. Eu não quero mais tua amizade, quero teu amor. E eu sei que você também quer!" e eu, com os olhos vendados pelas imposições e cobranças da sociedade egoísta, agradei ao mundo quando me neguei e rejeitei os sentimentos mais sinceros que já tivera em toda a vida. Cego, apenas afastei-o, empurrando-o pelos braços e gritando com repulsa: "Me larga Frederico, você sabe que eu não gosto dessas coisas, eu sou normal, cara! Normal!"